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Entrevistas

ENTREVISTA DE CARLOS PINTO CORRÊA

Entrevista para o Circular - Boletim Informativo do CPB,
publicada em edição especial, Ano II, página 2, outubro de 1993.


1-O que é o Círculo Psicanalítico da Bahia? Como começou?
Pela ordem, retomemos a história. Com a constituição do Círculo do Rio de Janeiro, formado por colegas que deixavam a IPA, nós do Círculo de Minas Gerais, fomos tomados por fantasias expansionistas, sensibilizados pela demanda de algumas cidades. Naquela ocasião só existiam sociedades psicanalíticas no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Colegas começaram a reconhecer em mim o possível fundador de um novo círculo. Havia contatos com Curitiba e entendimentos mais avançados com Brasília. Carlos Tironi, um ítalo-baiano que fazia sua análise e formação em Belo Horizonte, colocou a Bahia em pauta, mostrando o clima favorável para o deslocamento do que chamávamos de analista didata.

Desde a infância eu tinha uma relação poética com a Bahia, pelas músicas de Dorival Caymi e depois pelos livros de Jorge Amado.Quando escreveu que "escorre o mistério sobre a cidade como um óleo" deixei-me seduzir. Comecei por um mês de férias, para sentir o chão e o mar. Depois dei um Curso no Instituto de Psicologia, que funcionava na Francisco Ferraro, promovido pelo Tironi. Surgiram os candidatos. No dia 5 de julho de 1972 comecei meu trabalho de analista, já com os planos de fundação do Círculo.

Sobre o que é o Círculo, diria ser uma instituição que cumpre seu destino. Fui o fundador, mas não sou pai. Ele é adulto e autônomo: forma, congrega e representa psicanalistas. É um espaço de estudo e convívio.

2- E o Círculo Brasileiro de Psicanálise?
No princípio ele era o verbo. Chegamos a nos constituir todos como Círculo Brasileiro e as entidades locais eram as secções. Com o crescimento e a necessidade de autonomia das sociedades locais, o Círculo Brasileiro passou a ser uma espécie de coordenador, ou se quiserem, mantenedor da unidade entre elas. Como presidente do Círculo Brasileiro, propus que ele se tornasse uma Federação, de modo a atenuar a questão do poder, valorizando a autonomia das filiadas. 3- Qual o lugar de Caruso na formação dos fundadores do Círculo Brasileiro de Psicanálise?

Precisamos retomar a Viena de pós-guerra, quando a maioria dos seguidores de Freud, sendo judeus, haviam abandonado principalmente a Áustria, primeiro pais anexado. Aconteceu um processo de revitalização da psicanálise na Europa, com um retorno ao estudo de Freud. Caruso, de origem Russa e residente em Viena, estava ligado a Gebsatell e não pretendia fundar uma instituição. Como professor da Universidade de Viena, realizava seminários nos quais se propunha a "repensar Freud a partir das origens". Os seminários se tornaram muito procurados e vieram a se constituir no Círculo de Viena. O nome Círculo veio de ARBEITSKREISE (círculo de estudos). O trabalho frutificou, com a abertura de outros círculos na Áustria e posteriormente em outros países.

Malomar Lund Edelweiss e Gerda Kronfeld foram freqüentar os seminários do professor Caruso, e ao voltarem, criaram o Círculo Brasileiro em Porto Alegre. Com o deslocamento do professor Malomar para Belo Horizonte, criou-se outro grupo.

Caruso não aceitou o patrulhamento da IPA, que na ocasião opinava até sobre detalhes da bibliografia a ser lida. Sua proposta de repensar Freud era absolutamente incompatível com os objetivos uniformizantes de formação analítica. Valorizou as divergências imprescindíveis ao processo de criação intelectual. Sendo um grande pensador não pretendia impor a quem quer que fosse, seus conceitos. Ele próprio criticava um possível "grupo carusiano", insistindo que a psicanálise está em Freud. O grande legado de Caruso é a fidelidade a Freud e a liberdade para que cada pessoa faça seu próprio trajeto intelectual.

4- Por que há pouca difusão das idéias de Caruso?
Caruso deixou mais de 250 trabalhos publicados, todos em alemão, com raras traduções para o português, francês e espanhol. Como pensador, não se preocupou com a divulgação de sua obra. Faltou nos Círculos quem se empenhasse verdadeiramente nessa tarefa. Armando Suarez, um colega do México, traduziu e publicou algumas de suas obras no México.

5- Qual o sentido da viagem de Caruso ao Brasil?
A viagem de Caruso ao Brasil se deu por uma necessidade nossa que iniciávamos o Círculo de Minas Gerais. Com ele fizemos nossa supervisão e durante o período em que esteve conosco deu seminários de Teoria e Técnica, além de um curso de Extensão Universitária de dois semestres intitulado, Filogênese e Ontogênese da Personalização. Esta palavra personalização seria como um eufemismo psicanalítico frente ao nosso embaraço com a palavra cura. Todo o material do curso foi traduzido para o português e editado sob a forma de apostila.

Caruso obteve um contrato com uma editora austríaca e convidou a alguns de nós para que juntos escrevêssemos um livro, que seria uma espécie de súmula deste repensar Freud. Iniciamos o projeto que esbarrou com dificuldades editoriais. Como o livro seria publicado em alemão, tivemos problemas para a recopilação das citações nas línguas originais. Não encontrando quem pudesse se encarregar de tal trabalho, o projeto foi suspenso.

Caruso foi a chancela para o nosso grupo ainda incipiente, que precisava de reconhecimento. Quem soube se aproximar dele e estar um pouco mais de perto, teve a oportunidade rara de se conviver com um homem de profundidade sem limites.

6- Qual a vinculação internacional do Círculo Brasileiro de Psicanálise?
Originariamente foi a Internationale Foderation der Arbeitskreise fur Thiefenpsychogie, fundada para manter o elo de ligação entre todos os Círculos. Somos também filiados à International Federation of Psychoanalysis Societies.

7- O Círculo deu origem a outras Instituições. Por que as dissensões?
As dissensões não são um acontecimento particular da nossa instituição. As dificuldades de relação entre os analistas são notórias em qualquer parte e tem merecido estudos e análises de todos os tipos. Ao fundar o Círculo da Bahia, pensava num organismo ende as pessoas fossem mais importantes do que a armadura institucional, mas o poder é irresistível. O processo de institucionalização entre nós é de tal ordem que sempre acabamos tendo uma superestrutura que trai as pretensões inovadoras.

As dissensões não são, portanto, um mal. A adesão à uma instituição acontece muitas vezes derivada da escolha do analista. As pessoas se modificam com a análise, encontram companheiros de estudos, uma metodologia de seminários, a filosofia institucional, bem como os quadros conceituais que definem o trabalho dos seus membros. É de se esperar que até por uma questão de maturidade, as pessoas que não se sintam bem onde estão, ou que se sintam mais atraídos por alguma outra instituição, façam nova opção.

Existem psicanalistas que saíram do Círculo e se encontraram em outras instituições, o que é ótimo. O IEPS foi criado por pessoas do Círculo de Minas e depois veio a se filiar ao Círculo Brasileiro. Volto a insistir que o que vale são as pessoas.

8- O que é a I.F.P.S.?
A International Federation of Psychoanalytic Societies é a sucessora da International Study Group of Psychoanalytic Societies, que foi fundada em 1962 em Amsterdam, por Caruso, Chrzanowski, Fromm e outros. Um objetivo, não declarado, foi de oposição à IPA. A idéia era criar um fórum, onde psicanalistas de várias correntes (incluindo os chamados ortodoxos) pudessem se encontrar e onde a teoria e a clínica fossem debatidos. Possui uma Diretoria, um Comitê Executivo e a Assembléia de Delegados. Calculo que hoje deva ter quase vinte sociedades filiadas e já realizou nove Congressos Internacionais que recebem o nome de Fórum.

9- E o Sr. considera válida a proposta da I.F.P.S.
Durante vários anos fui frequentador desta sociedade, iniciando em 1969, com a luta para conseguir a filiação do Círculo Brasileiro. Ela é representativa e válida como oportunidade de encontro para as diversas sociedades.

No que tange à parte científica, faço reparos. A diversidade de concepções teóricas, que nem sempre possuem pontos claros de convergência, invalidam a oportunidade de debates. Participei de uma mesa redonda com a filha da Karen Horney e quando terminamos nossa apresentação tivemos um pesado silêncio. Falamos coisas tão díspares que abriu-se uma fenda insolúvel para debate. As divergências eram sempre tratadas com respeito, mesmo diante de citações inaceitáveis. Em Zurique estivemos em uma Main Lecture onde modelos teóricos criaram impasse com um acirramento de intolerâncias difíceis. Mas, é um evento dinâmico e quem compareceu ao VII Fórum realizado no Rio, sabe que é um grande congresso com muitas oportunidades.

10- Qual a opinião do Sr. sobre o movimento psicanalítico na Bahia hoje?
Não me considero a pessoa mais indicada para fazer semelhante avaliação. Sei que há uma intensa busca ao saber psicanalítico e um crescente desdobramento das instituições, o que não é um fenômeno local. O movimento de palestras, cursos e conclaves é intenso e fecundo, mas não sei se a valorização na análise pessoal têm caminhado em proporções equivalentes. A troca da oportunidade de se analisar pela aprendizagem da teoria psicanalítica é um desvio empobrecedor, em que o principal legado de Freud é perdido.

DADOS SOBRE O ENTREVISTADO
Carlos Pinto Corrêa, natural de Belo Horizonte onde: foi professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais e do C.T.A do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica
Formação psicanalítica em Belo Horizonte, supervisão com o prof. Igor Caruso.
Presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise por 2 gestões, em que se realizaram dois Congressos Brasileiros, o de Salvador e o de Recife.
Vice presidente da Internationale Foderation der Arbeitskreise fur Thifenpsychologie,
Ex membro delegado da International Federation of Psychoalytic Societies,
Day President no Congresso de Igls (Áustria), Vice Presidente do VIII Forum Internacional. Convidado a Main Lecture do VII Forum Internacional.
Fundador do Círculo Psicanalítico da Bahia e primeiro presidente. Atuou ainda na fundação do Círculo de Pernambuco, do Rio de Janeiro e de Sergipe.